Kali
Aumento o meu vocabulário vasculhando universos ao meu redor, conecto mentalmente tudo que há entre o grão de areia sob meus pés e a estrela mais distante. Uso, finjo que quero saber tudo sobre ela, a vida, como se ela fosse uma mulher e eu um homem faminto. Uma porcentagem da minha curiosidade transmuta tudo que absorvo de fora em argumento para os meus próximos sonhos imorais, um quinhão é para cumprir um ritual mitológico pessoal que criei com o mero intuito que sabotar o arraste do tempo. Com o bagaço simbólico que resta eu tenho montado relicários em meu peito, observatórios na minha fronte, púlpitos na minha garganta... Um dia desses eu usei o que me restou das últimas lembranças do corpo dele e do som dos meus gemidos como matéria de uma ponte que eu ainda não sei em que vácuo das minhas vísceras alocar e nem sua origem e destino. Através dos meus olhos passei a minha vida vendo pessoas que gastaram muitas estações angariando coisas, as perderem com um simples vento, amores...