Kali

Aumento o meu vocabulário vasculhando universos ao meu redor, conecto mentalmente tudo que há entre o grão de areia sob meus pés e a estrela mais distante.


Uso, finjo que quero saber tudo sobre ela, a vida, como se ela fosse uma mulher e eu um homem faminto.


Uma porcentagem da minha curiosidade transmuta tudo que absorvo de fora em argumento para os meus próximos sonhos imorais, um quinhão é para cumprir um ritual mitológico pessoal que criei com o mero intuito que sabotar o arraste do tempo.


Com o bagaço simbólico que resta eu tenho montado relicários em meu peito, observatórios na minha fronte, púlpitos na minha garganta... 


Um dia desses eu usei o que me restou das últimas lembranças do corpo dele e do som dos meus gemidos como matéria de uma ponte que eu ainda não sei em que vácuo das minhas vísceras alocar e nem sua origem e destino.


Através dos meus olhos passei a minha vida vendo pessoas que gastaram muitas estações angariando coisas, as perderem com um simples vento, amores destruídos, cidades submersas, pandemias... Olhei imagens e altares, li evangelhos.


Eu já me senti confortável algumas breves vezes em que aquilo que eu idealizava correspondeu à realidade, dela usufruo apenas do caos para minha construção.


O mundo que há hoje em mim é regido por uma deusa instável , é tudo o que eu desejo é eterno por flertar com o surreal, imaginário e intangível.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crisálida

Coabitante